Tenho vários amigos defensores da natureza via internet. São pessoas da pior espécie. Amar a natureza pra eles é gostar daquele monte de arvorezinhas que ficam lá na floresta que é um lugar cheio de bichos e rios. Normalmente esses mesmos amigos sonham em comprar aqueles carrinhos modernos meio caminhonete, meio carro de passeio, que cospe diesel pra todo o lado. Muitos deles não sabem o que é coleta seletiva de lixo, outros nem sequer sabem que o franguinho a passarinho que acompanha o chop vive por 40 dias antes de morrer e que tem basicamente hormônios dentro da carcaça penosa. Entopem-se de agrotóxicos quando pensam no futuro, nos bons momentos em família que pretendem desfrutar, realizando portanto uma dieta balanceada sem carboidratos. Seus filhos talvez nem saberão que a carne que comem vem de animais, e que o boi ou porco desfrutado no domingo seja um dos motivos pra ele viver dentro de uma estufa usando roupas especiais que o protegem do sol cancerígeno. Eu e meus amigos. Talvez eu os mereça ou talvez eu não faça nenhum esforço pra encontrar melhores companhias. Acredito que ainda tenho escolhas que me guardarão durante a jornada misantrópica na vila feliz.
Minha razão de ser é social. E social sendo, vivo buscando uma forma exercitar minha caridade. Em tempos de 'criança esperança', lanço eu minha campanha! Uma série de postagens com músicas-de-auto-ajuda de minha criação. A primeira foi moldada pro sujeito urbano-megalopolitano que respira fumaça de escape e vive numa caixa de fósforos. Foi batizada de "Oração do Relaxamento". Tenho certeza que fará bem a todos que padecem dos males pós-modernos! Abraços e muita luz pra todos
Deitei durante a tarde de domingo para um breve cochilo e fui levado de súbito pra um lugar que desde os meus nove anos não freqüentava em pensamento. Era uma casa velha, na verdade ainda não se configurava como casa pois haviam dado início a construção que logo foi abandonada por falta de dinheiro. A casa ficava localizada em meu bairro e pertencia a um amigo de meu pai. A obra ficou interrompida por uns dois anos e dentro desse tempo muitas coisas aconteceram na casa sob meu testemunho. Mas o que me veio enquanto sonhava, foi um episódio marcado pela violência e falta controle típico da infância. Por esta época estavam alojados na casa três homens que passavam a maior parte do dia, para não dizer o dia todo, bebendo alguma coisa que na minha região é chamada de “Corote”: um pequeno recipiente de plástico, cerca de 500ml, em formato de barril, contendo álcool pronto para consumo. Certa noite como era de costume fui até a casa de meu vizinho, Márcio, para saber o que faríamos, ele era o nosso mentor. Digo nosso, pois a turma era composta por quatro pessoas: Márcio, 16 anos; Alessandro, 14 anos; Rogério 12 anos; e eu 09 anos. Nossa turma era bem diversa, Márcio era um sujeito muito inquieto, o que despertava minha admiração pois sempre estava envolvido com alguma coisa que meus pais jamais permitiriam que eu fizesse. Alessandro era um garoto criado numa família completamente desestruturada, o pai estava preso, a mãe envolvida com tráfico de drogas, e ele acabou por conseqüência fazendo pequenos fornecimentos de substâncias ilícitas no bairro onde moravamos. Rogério, era um garoto que não possuía limites, tinha o interesse voltado para situações proibidas, um moleque que os psicólogos diriam “não teve a interdição do pai”, realmente não teve, pois o mesmo faleceu quando ele tinha apenas 3 anos. Já eu não tinha nada de interessante, comparado aos meus amigos, justificado pela pouca idade e pela minha família que pode-se dizer fez tudo a seu alcance pra que eu fosse um pessoa “normal”. Somente tinha liberdade para circular entre essas pessoas pois meu pai era considerado louco naquela vizinhança e portando era temido não só por mim como por uma boa parte das pessoas que ali residiam inclusive os meus amigos. Mas voltando ao sonho que tive, era uma noite tranqüila e fresca típica da primavera, quando fui até a casa de Márcio e de lá saímos para encontrar os outros dois moleques. Quando nos encontramos os três decidiram que iríamos conseguir dinheiro naquela noite e a forma de faze-lo seria extorquindo os bêbados que estavam na casa abandonada, e que deviam ter algum trocado proveniente de esmola. Mesmo com todo o receio que possuía segui na empreitada junto com meus camaradas. Chegamos lá e eles estavam dormindo completamente bêbados......
"Numa daquelas noites empolgantes encontrei uma amiga no messenger e começamos a gastar o tempo. Não nos víamos e nem nos falávamos fazia uns dois anos. A garota é nova tem 22 anos e poucas experiências, digo aquelas que fazem você ter um olhar carinhoso pelo que vem lá do vaticano. A certa altura ela começa a falar de suas últimas leituras, de seus discos, filmes e é daí que surge o tal 'crepúsculo'. Alguma coisa vampiresca, o mesmo velho roteiro blasé. Tentou me convencer a todo custo a apreciar a sua sugestão. Fiquei meio puto com aquilo e resolvi a questão sugerindo pra garota um filme que teria certa semelhança com o que ela indicava. Falei do '120 Dias em Sodoma'. Duas semanas depois ela deixa um recado dizendo que nossa amizade já não era tão interessante."
"O mundo vivia seu 13° kaos e todos os seres tinham a chance de uma última escolha. O nosso herói, previsível como sempre, escolheu como destino o paraíso da música. Sua vontade póstuma foi autorizada e ele encontrou 20% das almas rarefeitas vivendo o mesmo sonho. Em parte ficou animado por saber que habitava entre várias figuras proféticas, muitos estavam ali por apreciarem extravagâncias que não foram suportadas pelo invólucro humano. Se havia certa satisfação esta durou pouco por continuar sem o mínimo talento para a expressão. Tentou os baldes, latas de lixo, flautas doces, tamborins e por fim cuíca. Não convenceu e continuou batendo palmas"
Tenho sonhado com coisas estranhas ultimamente. Alças de caixão, carros com rodas largas, violões com cordas quebradas, canetas bic sem tinta (esfregando no papel pra ver se ainda sobrou, fósforos molhados, guarda-chuva quebrado, novamente o violão agora com as cordas enferrujadas, molho de tomate mofado na geladeira (uma frigidaire daquelas com alavanca). Bom, resumindo, centrei minha atenção na geladeira, não consigo viver sem ela. Até lembro das visitas a casa de meu tio avô onde podia ver a artimanha do velhote que botava carne com banha de porco pra conservar por uns dias, pois não tinha geladeira. Ainda era interessante o fato do canastrão ter uma bicicleta, mas não saber andar. Ele levava a magrela até o boteco e depois voltava de lá usando ela de apoio pra chegar até em casa. Puta que pariu, isso é que é experiência! E você aí achando que sabe de tudo! Daí consegui decifrar o elemento mais intrigante dos sonhos as alças de caixão.
A cantora e modelo alemã Kim Petras, 16, explicou em seu blog por que passou tanto tempo sem dar notícias: esteve duas semanas no hospital, de onde saiu como a mais jovem transexual do mundo. "Tudo correu bem e por enquanto estou feliz", escreveu Kim em novembro --antes da operação, ela havia lançado o single "Fade Away" (desaparecer).
Kim Petras, 16, começou a tomar hormônios femininos aos 12 anos de idade; no Brasil, esse tipo de tratamento é liberado aos 18 anos.
Kim começou a tomar hormônios femininos aos 12 anos, quando era Tim. "O caso, pioneiro, foi polêmico na Justiça alemã. O tratamento só poderia ser feito na maioridade, mas os médicos consultados concordaram", diz o psiquiatra Alexandre Saadeh, do Instituto de Psiquiatria do HC de São Paulo.
O transtorno de identidade de gênero pode começar aos três anos. "Mas nem toda pessoa será transexual", diz Saadeh. Por isso, é importante esperar que a personalidade esteja definida.
No Brasil, o tratamento hormonal é liberado aos 18 anos --"embora haja pessoas de 12 anos se automedicando com anticoncepcional", conta Saadeh. Para a cirurgia, o mínimo é 21 anos.
O ideal, segundo o psiquiatra, seria o tratamento hormonal antes de virem as características sexuais secundárias (como pelos), ou seja, a medicina deveria intervir antes de o(a) jovem constituir as características masculinas, como no caso de Kim, para que eles não tenham que chegar a maioridade ainda com problemas de reconhecimento. Vale lembrar que a identidade sexual se define ainda no início da adolescência, por volta dos 10 anos de idade.
A solução da Sociedade [Internacional] de Endocrinologia é que a puberdade seja bloqueada até os 16 anos. No Brasil, contudo, esse bloqueio não é permitido.
No Brasil a cirurgia de Readequação Sexual é feita pelo Sistema Único de Saúde, em casos que sejam acompanhados por médicos e psicólogos, obedecendo a um processo de contato anterior com a pessoa que deseja realizar a operação.
O intuito é não incorrer em erros. A identidade de gênero supera os limites do corpo, como construção social e cultural, a pessoa se reconhece masculino ou feminino, acompanhado por desejo sexual ao sexo aposto ao que acredita ser o sexo psicológico.
Sabe que no 'encotro bacante nº 5' surgiu muita coisa interessante. Foi de lá que veio o "está aberta a temporada de doação de sentido"; e também o "algumas pessoas vivem dentro de uma bolha positivista". Pois é, a energia deste dia ecoa ad infinitum..... "Desde as andanças em Turim alcancei o déchiffrement, agora fica difícil recuar".
EVENTO: 40 anos de Teatro Oficina: abraço ao quarteirão; brinde com vinho tinto; ensaio aberto de alguns episódios de A Luta de “Os Sertões”, festa.
São Paulo, Teatro Oficina e imediações,16 de agosto de 2001.
Estávamos todos numa festa, uma grande comemoração, um ato político, um encontro de resistência. Para marcar e comemorar seus 40 anos, o Teatro Oficina promoveu um evento que era também uma forma corajosa de enfrentamento do avanço do Grupo Silvio Santos no centro da cidade. Seu esforço vinha somar-se ao conjunto de movimentos que buscam resistir ao atropelamento das potências da cultura e das artes pelas forças financeiras e da mass midia. Tomados por essas potências caminhávamos pelas ruas do Bexiga em volta do teatro, convidando a todos a participar da festa. Entre nós, Zé Celso, sua vitalidade, sua alegria, seu excesso, sua desmesura ...
Caminhamos para o teatro. Zé Celso nos fez ver o espaço no qual íamos entrar. A entrada, aberta a qualquer um, possibilitava que crianças das imediações, mendigos, transeuntes pegos de surpresa, e que tinham sido arrastados pela passagem do “Bloco Oficina” pelas ruas do Bexiga, estivessem presentes na comemoração. Juntos brindamos, cantamos juntos, bebemos juntos. Atores históricos do Oficina estavam presentes. Uma grande emoção atravessava a todos.
Presente também estava ele. Ele que não estava no script. Ele, que se metia no meio dos “históricos” do teatro e que se apossava, como eles, de uma garrafa de vinho, colocada ali para ser compartilhado com o público. Ele aplaudia entusiasticamente, tentava se “enturmar” com o povo do teatro, mas sua presença ali denotava uma pequena incongruência. Todos se perguntavam, “quem é aquele ali?” A certa altura Marcelo Drummond se exaltou e quis tirá-lo a força. Zé Celso interferiu: - “Deixa.... deixa.... é o Exu da hora”.
Ele estava bêbado? Ele era louco? Ele estava absolutamente tomado pelo espaço do teatro. Era uma pequena incongruência instalada no acontecimento. Pequena mesmo, bem menor que um tocador de tuba numa apresentação de quarteto de cordas, como nos propôs imaginar certa vez Luís Fernando Veríssimo1. Tão pequena que alguns se perguntavam: “Fará parte do grupo de atores? Será amigo de alguém?” Ele aplaudia quando não é para aplaudir, e expressava em alto e bom tom, quando solicitado a silenciar, “Mas eu adorei demais! Foi maravilhoso!”
Ele estava tomado pelo vinho, por Baco, pela alegria, pelos deuses do teatro, por Exu.
Estávamos assistindo ao ensaio aberto de trechos de Os Sertões. O Oficina tematizava o cerco sofrido pelos seguidores de Antônio Conselheiro no sertão da Bahia. Tematizava também o cerco que sofre o Oficina no centro de São Paulo. Ele encarnava um outro cerco, um cerco sem lugar, sem centro e por toda parte. Ele incomodava. Por que incomodava tanto? Por que mobilizava tanto os atores, que tentavam tirar-lhe a garrafa de vinho e tirá-lo dali? Ele interferia na programação do dia, quebrando o ritmo do espetáculo, deixando os atores sem saber o que esperar, sem poder se programar. E pior, não sabia o seu lugar. Falava quando era a vez dos atores e falava também quando era a vez do público. Não respeitava as regras de interação no teatro. Ele, com certeza, era um elemento de desestabilização. Ele era perturbador.
Em cena, a prefeita Marta conversava com os representantes do Oficina sobre a construção do Shopping Silvio Santos no Bexiga. A atriz que representava a prefeita, encontrou uma saída bem ao gosto dos trabalhos do Oficina: passou por ele e beijou-o na boca. Ele ficou extasiado, com muito tesão e quando o beijo terminou e ela o soltou podíamos ver-lhe ainda a língua em busca da boca da atriz. A partir daí, ele se sentiu convidado a participar da cena como protagonista e aceitou o convite, se instalando na cena e instaurando um verdadeiro acontecimento. Postou-se ao lado da “Marta da hora”, um pouco atrás; cruzou os braços, como um segurança, um companheiro, um amante? Estava em cena; no centro da cena; deste lugar seria retirado do teatro numa solução, para muitos, absolutamente cênica, que parecia resolver toda a contradição trazida por sua intervenção. O acontecimento ficava, assim, reduzido a uma questão técnica.
Há alguns anos atrás eu presenciei, neste mesmo teatro, uma atriz sentar-se ao lado de um “espectador”, enfiar a mão dentro da sua calça, enquanto ele teso, rijo, não de tesão, era a mais pura expressão do constrangimento. Situações em que, no encontro entre elenco e público, este último fica em extrema desvantagem em relação ao primeiro, pelo incômodo com a situação de exposição em que é colocado, sem ferramentas para manejá-la, sem a possibilidade de criar a partir da proposição que vem da parte daqueles que estão autorizados a criar.
Ele aqui, neste dia, não ficou nada constrangido; gostou, queria mais. Aceitou a proposição e quis jogar. Mas estava sozinho. Sua falta de cerimônia para com os atores (a mesma que eles oferecem ao público) talvez tenha deixado a todos no teatro bastante constrangidos e ansiosos para encontrar uma solução que eliminasse aquele incômodo, que ia crescendo pouco a pouco, para que a apresentação pudesse continuar.
A “Marta da hora” encontrou a solução tão esperada: chamou os “seguranças” e pediu, pediu não, ordenou que retirassem o “elemento” por “desacato à autoridade”. Ele foi agarrado pelo pescoço por dois atores-seguranças, mas não se entregou facilmente. Se debateu, chutou, estrebuchou até passar pelos portões vermelhos do teatro, quando não pudemos mais vê-lo. Toda a cena era acompanhada pelo coro da platéia que gritava “Tira, tira”, numa unanimidade que dava arrepios. (Como se não houvesse nenhuma contradição naquilo que estávamos vivendo ali.)
Mas, ao tentar travestir de cênica a expulsão de uma pessoa do público, os atores não conseguiram encobrir a violência da atitude, deixando claro, no cruzamento entre ficção e realidade, que o que estavam fazendo ali tinha um paralelo óbvio com a posição tomada pela prefeita no embate entre Oficina e Silvio Santos e, na cadeia das analogias então propostas, com a ação do governo federal em relação a Canudos. A solução mais fácil para uma situação extremamente complexa: excluir, varrer, apagar o elemento disruptivo, incongruente, desestabilizador, incômodo.
Atônita, eu não conseguia mais acompanhar o que se passava ao meu redor, o desenrolar das cenas diante dos meus olhos. Meu corpo tinha sido tomado por um estado de torpor. Uma grande tristeza, enfim, de o Oficina não ter conseguido levar até o fim, radicalizar, sua proposta de teatro. Não ter aceito o desafio do acontecimento, não ter navegado, um pouco que fosse, na linha sutil que o acontecimento propunha, não ter aceitado o convite de embarcar na viagem de um teatro no qual não se sabe mais quem é ator e quem é público, quem, no final das contas, está autorizado a criar. Talvez se, ao invés de terem agarrado o espectador pelo pescoço, se tivessem deixado agarrar pelo pescoço por essa impossibilidade que se fazia ali ....
Em cena uma quadrilha. Os atores convidavam o público a dançar, mas agora este era quase um convite à infantilização. Será só este estreito espaço que somos convidados a ocupar neste teatro que parecia tão grande, tão generoso? Não ousaríamos mais ousar ou ir mais longe. Talvez os atores, alguns muito novos, não tenham sabido jogar com um espectador sui generis. Um outrem que, levando ao limite o questionamento dos lugares no teatro, colocou em questão a própria proposta de trabalho do Oficina, pautada na desmesura, no arrebatamento, no tesão. Esse encontro não foi qualquer coisa. Criou um acontecimento, instalou um grande mal-estar e instaurou uma ruptura no evento. Alguém tinha sido expulso pelo pescoço para fora do Teatro Oficina. Algo do brilho radical do teatro de Zé Celso se esvanecia ali.
Mas, se ao invés de negado, esse mal-estar tiver sido acolhido, um processo de produção de alteridade no próprio seio deste teatro, provocado pelo encontro com esse outrem, poderá ainda estar em curso. Talvez este acontecimento tenha produzido efeitos insuspeitos, levando essa forma de fazer teatro, tão viva e criativa, a se perguntar pelos limites de sua própria proposição e pelo que está para além desses limites. Qual é o lugar do público neste teatro e até onde ele pode ir? Quanto do encontro com o público esse teatro pode suportar e como fazer desse encontro um disparador de diferenciação, seja no público, seja nos artistas, seja no próprio teatro. Como a potência criadora que está nas mãos dos artistas pode ser compartilhada provocando nos espectadores um estado-de-arte?
Rubens Corrêa disse certa vez que se ele tivesse que elencar três dos grandes momentos de sua vida, um deles seria a apresentação do espetáculo Artaud para os internos do Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro. Ele nos conta que a certa altura os espectadores começaram a se aproximar, subiram ao palco e construíram o que ele chamou de “um espetáculo realmente artaudiano”2. Esses momentos são únicos, raros, quase sublimes. São momentos de contaminação em que experimentamos a força de um processo de criação em ato.
Antônio Conselheiro, fanático, louco, visionário, foi morto, seu sonho sepultado, seus seguidores dizimados ....
Ele, bêbado, louco, chato, foi arrancado a força da platéia e do palco do Teatro Oficina. (Haveria uma solução melhor?)
Zé Celso, visionário, louco, criador genial, continua com sua trupe em seu teatro no Bexiga. Até quando? Esperamos que por muito tempo e de forma viva, aceitando e habitando as contradições e os paradoxos que qualquer proposta radical abriga; enfrentando as impossibilidades que se apresentam em experiências como esta, que apontam para os limites de uma configuração e que são elementos constitutivos do ato criador.
Afinal, como aprendemos com Deleuze, “se um criador não é agarrado pelo pescoço por um conjunto de impossibilidades, não é um criador. (...) sem um conjunto de impossibilidades não se terá essa linha de fuga, essa saída que constitui a criação”.
*Artigo publicado em Interface: comunicação, saúde, educação. Fundação UNI Botucatu/ Unesp, v. 6, n. 10. Botucatu:fundação UNI, 2002.
1 Veríssimo, L.F. (1981) “Recital” in: O analista de Bagé. Porto Alegre: L&PM Editores.
2 Rubens Corrêa in: Passetti, E. (roteiro, edição e direção). Encontro com pessoas notáveis n.º 1: Nise da Silveira. São Paulo: Fundação Cultural São Paulo / PUC-Cogeae, 1992. (vídeo)
3 Deleuze, G. (1992)Conversações. São Paulo: Editora 34, p. 167.
"Beber é algo emocional. Faz com que você saia da rotina do dia-a-dia, impede que tudo seja igual. Arranca você pra fora do seu corpo e de sua mente e joga contra a parede. Eu tenho a impressão de que beber é uma forma de suicídio onde você é permitido voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar e renascer. Acho que eu já vivi cerca de dez ou quinze mil vidas."
Encheu o tanque não deu em nada pois a partida tava enguiçada Um empurrão Caiu na lama quebrou a cara Dormiu no chão Logo em Olinda, cheirando a mijo Levaram tudo, que maravilha!
A picardia Que grande lição Inclemente euforia, estrondosa frustração.
500 mil pessoas sem fazer nada, pulando no meio da rua Gozando do próprio sofrimento Centenas de milhares de idiotas Que trabalham o ano inteiro Pra gastar todo dinheiro nesses quatro dias... Nesses quatro dias de folia programada
Encheu a lata ficou na mão É bateria ou iguinição Achou alguém Caiu no conto foi assaltado
Que animação Levaram tudo deixando apenas a nostalgia do amor próprio A picardia Suprema lição, ruidosa folia, retumbante solidão.
Adultos Vladmir Maiakóvski (Tradução de Haroldo de Campos)
Os adultos fazem negócios. Têm rublos nos bolsos. Quer amor? Pois não! Ei-lo por cem rublos! E eu, sem casa e sem tecto, com as mãos metidas nos bolsos rasgados, vagava assombrado. À noite vestis os melhores trajes e ides descansar sobre viúvas ou casadas. A mim Moscou me sufocava de abraços com seus infinitos anéis de praças. Nos corações, nos relógios bate o pêndulo dos amantes. Como se exaltam as duplas no leito do amor! Eu, que sou a Praça da Paixão, (1) surpreendo o pulsar selvagem do coração das capitais. Desabotoado, o coração quase de fora, abria-me ao sol e aos jactos d’água. Entrai com vossas paixões! Galgai-me com vossos amores! Doravante não sou mais dono de meu coração! Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe - O coração tem domicílio no peito. Comigo a anatomia ficou louca. Sou todo coração - em todas as partes palpita. Oh! Quantas são as primaveras em vinte anos acesas nesta fornalha! Uma tal carga acumulada torna-se simplesmente insuportável. Insuportável não para o verso de veras. (1) Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin.
Antigamente, se morria 1907, digamos, aquilo sim é que era morrer. Morria gente todo dia, e morria com muito prazer, já que todo mundo sabia que o Juízo, afinal, viria, e todo mundo ia renascer. Morria-se praticamente de tudo. De doença, de parto, de tosse. E ainda se morria de amor, como se amar morte fosse. Pra morrer, bastava um susto, um lenço no vento, um suspiro e pronto, lá se ia nosso defunto para a terra dos pés juntos. Dia de anos, casamento, batizado, morrer era um tipo de festa, uma das coisas da vida, como ser ou não ser convidado. O escândalo era de praxe. Mas os danos eram pequenos. Descansou. Partiu. Deus o tenha. Sempre alguém tinha uma frase que deixava aquilo mais ou menos. Tinha coisas que matavam na certa. Pepino com leite, vento encanado, praga de velha e amor mal curado. Tinha coisas que têm que morrer, tinha coisas que têm que matar. A honra, a terra e o sangue mandou muita gente praquele lugar. Que mais podia um velho fazer, nos idos de 1916, a não ser pegar pneumonia, e virar fotografia? Ninguém vivia pra sempre. Afinal, a vida é um upa. Não deu pra ir mais além. Quem mandou não ser devoto de Santo Inácio de Acapulco, Menino Jesus de Praga? O diabo anda solto. Aqui se faz, aqui se paga. Almoçou e fez a barba, tomou banho e foi no vento. Agora, vamos ao testamento. Hoje, a morte está difícil. Tem recursos, tem asilos, tem remédios. Agora, a morte tem limites. E, em caso de necessidade, a ciência da eternidade inventou a criônica. Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
já me matei faz muito tempo me matei quando o tempo era escasso e o que havia entre o tempo e o espaço era o de sempre nunca mesmo o sempre passo morrer faz bem à vista e ao baço melhora o ritmo do pulso e clareia a alma morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma
in Paulo Leminski. Série Paranaenses nº 2, reunião de entrevistas e resenhas. Scientia et Labor, Curitiba, 1988, p. 7
Hoje o dia chove ao seu lado mas no ano que vem. Tudo vai dar certo não estará com os pés molhados ou mesmo nas fotos dos que serão lembrados
você sabe não deve perseguir o insano. se aprofundar num ambiente estranho Quando vai entender Só irá se dividir e implantar a confusão E quem vai se entregar? o pasto vai estar lá na paciência de quem se alimenta do verde. Hoje vai nascer Deixar de ser sonho queira desconhecer E ouvir o grande estrondo ou as luzes todas em você.
Tenha medo do seu sono pois ele vai te acalmar. E será o grito que deixou de existir. Agora mais dois tragos e Tudo se apaga outra vez
Foi no desespero de uma manhã de domingo que a mãe sentiu as dores do parto e o pai acelerou o Corcel II até o hospital. A partir daí surgiu o primeiro conflito, os médicos lutavam para tirar a criança, e ela por opção esforçava-se para não fazer parte deste mundo. Foi necessário o fórceps que sem surtir efeito foi substituído pela cesárea. O pequeno iniciante na arte do sofrimento gritou, gritou, gritou como nunca haviam escutado naquela maternidade.
Este lugar foi alcançado na última sessão de regressão. Após alguns meses de terapia, consegui dar sentido a rejeição pela carne (animal), pelo mundo (sociedade), pelos humanos (indivíduos). Simplificando, desde então dei nome a misantropia que já vivenciava. A vida tomou outro sentido, ou novas sublimações surgiram. Entendi porque era tão diferente, as vezes considerado excêntrico, estranho, esquisito. Vi que meu amigo buscava uma verdade que eu não podia oferecer pois não sabia que tinha conhecimento dela. Continuo não acreditando em quase nada e vejo que esta é uma postura menos ofensiva, e a única certeza que possuo. Conforta-me saber que o filho do terapeuta faz judô as custas das minhas sessões.
O coração do frango nasce programado para deixar de funcionar em sessenta dias. A sua carne é forte e suja, saborosa e cancerígena, útil como a sacola plástica do supermercado. Presta um valoroso serviço a sociedade, limpar o mundo! O humano suja, o frango anabolizado mata o desgraçado! Mas em doses homeopáticas. Um cancerzinho aqui, outro acolá e segue assim sua trilha de vingança em nome dos empenujados partidos pelo cutelo. Pois é, infelizmente a astúcia humanóide surpreende a cada dia, pra evitar o comprometedor assassinato em massa inventaram o coração com prazo de validade. O serviço sujo ficou por conta do enfraquecido coração galináceo. Mas a vingança é um prato que se come frio, opa! que se come quente.
Acreditaram nesses caras alheios a luta Numa conduta promiscua descompromissada Colocando em risco gerações futuras A memória popular vive ao esquecer Imóveis ao tempo, inertes Manipulados pelo falso poder A máquina humana gananciosa de expert's Espertos de mais para serem brasileiros Em venderem nossa alma ser que percebamos Pois estávamos ocupados com o divertimento E todas as migalhas esmoladas pelos coronéis, do governo
Assim se passaram os tais 500 anos Do tal descobrimento Para celebrar toda ignorância que criamos
Reservas são de madeiras asiáticas O índio e sua cultura esmagada entre a modernização Esse regime maldito conduzido por tecnocratas A 4° guerra mundial é chamada globalização É a que deixara o maior número de vítimas 40 milhões já vivem hoje no Brasil Fora do contexto simplesmente foram excluídas A paz e a dignidade para estas pessoas está bem distante Longe, muito longe...
Assim se passaram os tais 500 anos Do tal descobrimento Para celebrar toda ignorância que criamos
Hoje enquanto revirava velharias em casa encontrei uma caixa com correspondências. Uma parte delas me chamou a atenção pois era de um namoro da adolescência. Daí decidi colocar aqui uma carta escrita por minha ex-adolescente logo após nosso namoro a distancia ter ido pro espaço.
“---------, o dia e o ano não importam
Olá Pablo Petro, estou escrevendo para corrigir, ou melhor, refazer sua primeira carta.
Então seguem vários pensamentos aos quais você havia dado o nome de: Alternâncias de amor e desabafos de uma noite quente.
Refazendo...
Alternâncias de um relacionamento e desabafos de uma noite triste:
A explosão
A conclusão
O show
O passeio
O desejo
O arrependimento
A admiração
A despedida
‘A explosão’
Pra começar, não poderia imaginar que ao encontrar uma pessoa tão maravilhosa (sendo algo muito difícil nesta vida) acabaria de uma forma muito, muito, mais muito mesmo, Bum!!!
‘A conclusão’
Quando alguém encontra aquilo que sempre sonhou logo percebe que o que é bom não dura pra sempre (isso é uma nova conclusão pra mim), pois logo se percebe que as pessoas que lutam por aquilo que amam são a minoria.
‘O show’
Onde o protagonista foi apenas você. Prefiro não escrever mais nada a respeito, pois não sei o que aconteceu. Talvez, se estivéssemos juntos essa alternância seria mais uma continuação de um show inesquecível.
‘O passeio’
Quem diria que todo aquele tesão e combinação entre eu e você de mãos dadas, o que parecia tudo o que precisávamos para esquecer de tudo, hoje não passa de um orgulho bobo de ambos, que serviu apenas para nos aproximar do destino medíocre que reservamos para nós mesmos.
‘O desejo’
Não quero acreditar que somos vítimas do destino e que a ironia nos levou ao mesmo lugar onde um dia nos desejamos, e que bem ali, o oposto aconteceu.[a relação começou na mesma localização geográfica onde acabou]
É onde surge...
‘... O arrependimento’
Onde entre os espaços do silêncio, não tivemos coragem de nos redimir e voltarmos a ser felizes.
‘A admiração’
Você sabe como encantar as pessoas, não foi a toa que me encantei por você... Já estava cansada de clones, imitações baratas que as pessoas fazem umas das outras. O excepcional apareceu. Você com seu jeito simples e único.
‘A despedida’
Bem, esta alternância fica restrita. Pois, pra duas pessoas que juraram terem encontrado a pessoa de suas vidas, não acredito que essa palavra (despedida), aparentemente tão definitiva, faça parte da história de ambos...
Pode se supor que a vida ainda é bela Que aqui há muito amor e há flores na janela Pode se supor que a paz agora existe E que neste lugar ninguém está mais triste
Pode se supor que há vida em outros planetas E comunicações sempre serão feitas Pode se supor que você bebe um trago De vinho do Porto com José Saramago
Pode se supor que todas as pessoas Estão com seus amigos e nada as magoa Pode se supor que é seu dia de sorte Você ver a um cão parecido o Thom York
Pode se supor que agora nestes dias Iremos ser felizes! Simples utopias
Noite fria, coração vazio e vontade de fugir. Não deu outra, sai de casa com o velho chapéu de vime na cabeça rumando pra cidade velha. Entrei no antigo cinema que agora é um teatro todo redecorado cheio de figuras que buscam singularidade. Subi as escadas que levavam a antiga sala de projeção e fui acomodar-me nas poltronas superiores. De lá, vi o grande palco pronto pra encenar "A Perfeição Perdida" de um autor desconhecido, mas bem sacado. Os atores eram jovens e prematuros mais caiam muito bem na seqüência das cenas. Eram sujos, inocentes, mas sinceros. Percebia-se que vinham da rua. Possuíam toda a malícia dos que passaram fome e a placidez do bem alimentados. Papéis de anjos caídos são velhos e ultrapassados, mas na pele daqueles garotos retomavam vigor e impressionavam por ser cru. A montagem como um todo era bizarra, e parecia adequada a proposta. O paraíso é realmente uma idéia defasada e a perfeição só existe nos olhos do iludidos. Revivi, alimentei o espírito e continuei caminhando. Seis anos depois passo em frente ao velho cinema agora teatro e vejo a mesma "A Perfeição Perdida" em cartaz. Novamente subi as escadas e aproximei ao máximo da antiga poltrona. Vi os mesmos atores com os mesmos truques sacados, os mesmos jogos simples, mas envolventes, a mesma sensualidade promiscua. Descobri que pouco basta pra um bom estado de espírito. Tomei um porre com os desgraçados no final da peça e concluímos que aquela estória pode ser repetida por quem sabe 2000 anos.
"Hoje estou cônscio da minha linhagem. Não tenho necessidade de consultar meu horóscopo ou minha carta genealógica. Nada sei do que está escrito nas estrelas ou em meu sangue. Sei que provenho dos fundadores mitológicos da raça. O homem que leva a garrafa aos lábios, o criminoso que ajoelha na praça do mercado, o inocente que descobre que todos os cadáveres fedem, o louco que dança com o raio na mão, o frade que ergue a saia para mijar sobre o mundo, o fanático que rebusca bibliotecas para encontrar o Verbo - todos esses estão fundidos em mim, todos esses fazem a minha confusão, meu êxtase. Se sou inumano é porque meu mundo transbordou de suas fronteiras humanas, porque ser humano parece uma coisa podre, triste, miserável, limitada pelos sentidos, restringida pelas moralidades e pelos códigos, definida pelos lugares-comuns e ismos. Eu derramo o suco da uva na minha garganta e encontro nele sabedoria, mas minha sabedoria não nasce da uva, minha embriaguez nada deve ao vinho..." Trópico de Câncer, Henry Miller
O movimento imaginativo parte sempre de um brilho de início enigmático, mas que acaba despontando dentro da cabeça vazia de sentimentos verdadeiros. Uma ida simples ao banheiro é o estímulo necessário para a avalanche de idéias desconexas, confusas e obscuras. Deitado na cama pensa nos discursos, palavras bonitas, seqüências semânticas, revezes naufragados, monossílabos tônicos mal encaixados, seqüências obtusas; tudo rodeado por um fervor criativo que transporta o sono para um momento posterior. É sensato pensar em saúde, bem estar do corpo e blá, blá, blá... é vida transbordando, é doença que acumulada mata, liquido purulento que se não escapar acaba deturpando alguma função autônoma. Parece que o coração já está avariado quem sabe o que foi?: pode ter sido o excesso de vontade, contida por porções minúsculas de moralidade que acabam asfixiando células sadias-de-funcionamento-acelerado. O corpo agora está na vertical, pensou em subir uns dois corpos acima da cabeça e virar-se na horizontal, começar a percorrer o mundo descrevendo o que sente. Quem sabe assim encontre uma noção diferente da incrustada por baixo da pele. Boiar, flutuar, ser posto num movimento sem esforço. Todo o deslocamento simplificado pela inércia.
Essa história de fazer rock-cabeça às vezes dá mais trabalho do que escrever tese, proferir conferência ou defender político em CPI. Para gravar o clipe da música Last Night on Earth, de seu último CD, o grupo irlandês U2, capitaneado pelo fanhoso e enfadonho Bono Vox, colocou de pneus para o ar o trânsito da cidade americana de Kansas City. Caos instaurado, muito a propósito eis que surge o escritor maldito William Burroughs, de 83 anos, figuraça do movimento beat. No clipe, ele personifica uma força maligna que destrói a civilização condenada ao consumismo -- aquela praga engendrada pelo capitalismo que faz com que as pessoas se destituam de sua humanidade e passem a comprar toda sorte de porcaria, como os últimos discos do U2.
Desde que os Beatles começaram a cantar as delícias da filosofia oriental, aumentou o afluxo de jovens turistas americanos e europeus aos países da Ásia. Em seu último disco, um compacto lançado há poucos dias ("Revolution"), John, Paul, Ringo e George reforçam a sua mensagem pacifista: "Você diz que vai mudar a Constituição/ Sabe, é melhor liberar sua mente primeiro..." Os orientais, porém, não andam muito satisfeitos com isso. O Govêrno da Tailândia proibiu as companhias aéreas que servem o seu país de admitirem em seus aviões pessoas "com os cabelos do tipo Beatle ou vestimentas hippies". Explica um alto funcionário do Govêrno tailandês: "Essa gente pode influenciar mal a nossa sociedade".
Apresentada sempre para público adulto - as mulheres que a vêem em revistas de moda e os homens que a admiram nua em revistas masculinas -, a manequim e atriz Xuxa Meneghel, 19 anos, poderá ser apreciada agora por plátéias de todas as idades, no filme censura livre Fuscão Preto, que estréia esta semana em São Paulo. É a história de Dian, filha de um rico fazendeiro, cujo amor se divide entre dois homens e o misterioso automóvel, uma máquina humanizada que ama, briga e dispensa motorista. Um dos objetivos do filme é levar crianças ao cinema, para ver Xuxa, sempre vestida, em suas aventuras com o fuscão e os outros dois pretendentes. Ela acha a idéia formidável. "Xuxa tem bochechas e é dentucinha como uma menininha", diz a modelo sobre si própria. "É talvez por isso que as crianças adoram Xuxa, que também adora as crianças."
Dois garotos sentados no meio fio, contado carros. Era essa a rotina dos fins de tarde. Qual o número certo? Não importa, o que vale nesta cena é a possibilidade de ocupar-se do contar carros. Qual a finalidade, preocupação de dois garotos quando imersos nesta ação? Será que seus pais estão brigando, ofendendo um ao outro? Será que não possuem responsabilidades, atividades escolares ou ocupação que liberte-os desta rotina. Mas esta é a sua infância, ou melhor, esta foi a sua infância e é por ela que hoje ele briga, que assume as posições mais arriscadas para manter crianças livres de preocupações, livres de qualquer empecilho que as deixe tolhidas da sensação de sentir-se a vontade para contar carros. Entregar à vida a liturgia da infância. Mas lembro dos garotos em barracos de lona preta, com bandeiras hasteadas e com o discurso do oprimido na ponta da língua. Elas deixam de ser crianças por suas palavras de ordem? Por suas brincadeiras ‘fora de ordem’? Quando o garoto finge ser o ‘Zé Rainha’ ele não é mais criança? Com certeza o é! As vezes mais criança do que o garoto que conta carros. Pois ele tem sua infância ligada ao mundo adulto, tem seus ideais construídos com bases coletivas. Imagina o dia em que o seu povo estará liberto das garras da tirania colonialista que já superou os 508 anos.